Terça-feira, Julho 07, 2009

Estatística

"Uma hipótese pode ser definida neste contexto como uma conjectura acerca de uma ou mais populações"
Conjecturamo-nos futuros presos a sonhos de hipóteses esfiapadas. Populamo-nos de esperanças e desvios padrões. Desviamo-nos dos padrões em largos passos de felicidade. Adiamos a felicidade para conjecturas futuras. Jogo com as palavras. Lembro-me da prosa e da felicidade que a traz. Da tristeza que nela se cola sem esperar fumo branco na chaminé. Trago-te de volta, trago ácido e amarelo do tempo. Espelho nas palmas a cidade de que falamos e falamos de espelhos que reflectem as nossas mãos unidas. Unimos as mãos mais uma vez. Da forma que nos apetece. Puxo a impessoalidade para que te possas espelhar aqui. Tempo, tempo, tempo. Tempo demais que não chega para nada. Com um dedo faço congelar o quadro que mais me convêm. Com a mão rasgo no ar aquilo que sou. É escuro, é éfemero, é do tempo parado. Paro. Escrevo.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

breve, do tempo

Se os meus olhos te encontrarem com este amor que te trago no peito, beijar-te-ei. Sorri

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Não sou uma ilha

Num quadrado pequeno demais para se ver o mundo vão caindo palavras grandes demais para caberem no mundo. Eu esqueci-me que não me importo. Lembrei-me que sou humano. Quero escrever mais.

Segunda-feira, Março 02, 2009

Mastigar a vida

Mastigar o tempo com estes dentes cariados. Não o sol e a chuva. Mas os anos e meses. Tudo isto que vai enchendo o peito num balão que já estica mais. Sistema nervoso they call it . Eu chamo-lhe talvez tudo o que guardo. Tudo o que trago, armazeno e arquivo. O cotão das emoções que se vai acumulando debaixo de desejos poeirentos e frustrações renováveis. O mesmo ciclo sem ciclo novo. A mesma desilusão coberta pela mesma aparência. Tenho que ter este sorriso ao mundo. Já tive esta conversa. Não sei quem me obriga. Quem mo mostrava por exemplo, deixou-o cair de novo no quotidiano preto e branco. Quem mo mostrava com todas as cores, deixou-se fugir como areia na minha mão. Porque raio me faz falta tudo o que não tenho? Porque não encontro na prateleira o que perdi no coração. Aprisionado em mim próprio. Sem luz na mesinha de cabeceira. Sem folga para café. Sem folga para fumar. Talvez abra a janela de grades. Talvez mostre ao céu fatiado que também pode ser céu. Talvez mostra á vida aos bocados que também pode ser vida. Talvez mostre à vida que não pode continuar aos bocados.

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

200

A chuva já parou de chover, o dia que acorda tarde, ou cedo demais para a minha cama. O gelo cobre a chuva e o dia espera pacientemente nas gotas de água gelada. Os candeeiros mostram a luz já em vão contra o nascimento repetido do astro regente. As vozes ecoam contra o branco vazio da madrugada esquecida. A água corre e lava mais a mente do que o corpo, diluindo o turbilhão. Não é o fim do mundo diz-me Miguel Esteves Cardoso ao ouvido. Sou obrigado a sorrir. É talvez o fim do dia que começa. Uma distracção que surge como um bálsamo, o medicamento que rouba tanto tempo quanto dá. “É melhor fechar os olhos, é melhor fechar os olhos meu amor”. Talvez seja melhor fecha-los agora depois de os ter aberto tarde demais. Talvez estejam já fechados , já não veja nada do que escrevo. Não sei. Amanhã me direi.
*Duzentos. Maior ou menos qualidade, uma aprendizagem constante, desaprendendo constantemente.

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Quando eu era mais novo, havia uma coisa muito bonita que era a sedução

EA porta abre-se com uma sineta. Ele tira o casaco molhado e pendura-o num bengaleiro na entrada. Atrás do balcão o empregado prontamente tirou o cachimbo à máquina. Ele caminhou em direcção ao canto e sentou-se na mesa de olhos virados para a porta. O café chegou com o seu aroma a espalhar-se com a humidade. A humidade entrou também pela porta. A sineta fê-lo olhar pela porta e ver uns cabelos loiros que olhavam o guarda-chuva a fechar-se. A iminência do olhar dela fê-lo olhar de novo para o café que fumegava. Deixou cair o açúcar branco contra todo aquele castanho e esperou que ele se afundasse e que ela se sentasse. Pegou na colher e durante os movimentos rotativos vislumbrou-a já sentada junto ao balcão. Olhava para a lista com apetite. Ele olhava-a a ela. Apreciava-lhe a beleza. Os cabelos loiros caiam-lhe na direcção da mesa e alguns escondiam-lhe a testa. A boca de um vermelho pálido. Esticava de vez em quando os lábios como sinal de desaprovação do que lia. Ela subiu a franja com um gesto de cabeça, que como o fumo branco indicava que a sua escolha estava feita. Viu-lhe os olhos pela primeira vez, profundos como o nevoeiro de neve de janeiro. Rapidamente desviu o olhar antes que fosse apanhado. Pousou a colher no pires e levou a chávena à boca. Usando os dedos como escudo infantil, levou de novo os olhos à recém-chegada. Ela olhava o espaço vazio contemplando algo que não estava lá. Enquanto ele deixou cair o café na boca, ela moveu o vazio na direcção dele. Os olhos encontraram-se por pouco que pareceu muito. Como o flash das lâmpadas antes de se fundirem. Ele pousou então a chávena e pela periferia do olhar viu a mesa dela ser ocupada por uma chavena e um prato. Avançando na direcção dela com o olhar pousou na vitrina que ladeava a mesa dela. Viu o seu reflexo enquanto banhava o pacote de chá na sua chávena de café proporções desajeitadas. Enquanto fazia isso olhava para ele. Ele sabia-o, mas ela não sabia que ele o sabia. Como uma dança. Como uma dança foram-se olhando alternadamente enquanto ela esvaziava a sua mesa e ele esvaziava o seu pulmão de fumo. Quando terminou o seu cigarro ele ergueu-se da mesa. Do bolso retirou a moeda que deixou no tampo da mesa. Caminhou na direcção dela. Desta vez de olhar posto nas luvas que tentava calçar. Ela olhava para ele. Ele sabia-o e ela também. Ele desfraldou um sorriso enquanto passava por ela. Saiu para a rua onde a chuva ainda se fazia espalhar pelo vento. Caminhou mais uns metros até ouvir uma campainha. Nesse instante parou.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Conta-me o Natal

De entre os pregões alguém acelerou um garoto em direcção ao Natal. Outros dois mais crescidos abanavam as pernas para aquecerem os pés e arrefecerem o nervosismo. Ele já não sabia bem o que lhe dizer. Um só receio ocupava a sua mente.
-A tua mãe demora muito? - perguntou ela voltando à impertinencia enquanto fazia parar as pernas dele.
-Eu não sei se ela te vai dar azevinho...-disse ele tentando afastar a ideia da sua mãe chegar. Estava bem ao lado dela agora.-Moras muito longe?
-Eu moro mais ao menos, mas a minha avó mora aqui perto. E tu?
-Também mais ao menos.- A voz dele parecia aquecer-se de vergonha e esfumaçar-se à saida da boca. A beleza dele parecia tomar-lhe o peito e toda a cabeça no quente do verão.
-Está um bocado de frio. Achas que podia nevar?- Sara não procurava desconversar como os crescidos quando falam do tempo, tentava sim encontrar interesses em comum com a pequena companhia que lhe tinha arrebatado da sua insolencia.
-Eu gostava muito.-respondeu ele ainda tomado com toda a vergonha.
-A minha avó diz que não neva. Antigamente era tudo diferente, que agora já não neva. Não acho isso muito justo sabes? Nós também temos direito. Alguma vez viste neve?
-Sim, uma vez fui à serra da Estrela tinha neve lá.
-Eu nunca vi e queria muito.
O sol brilhava intensamente num sol demasiado vazio para os sonhos de Sara. As pessoas na rua acotovelavam-se e corriam, confirmando que o Natal estava perto. Se pudessem pediam à Maria que aguentasse mais um bocadinho, que não podia ser já, que ainda faltavam muitas prendas no pinheiro. O David dizia o mesmo. Ainda não podia vir já a sua mãe. Ele que passara as últimas semanas a desejar o chocolate do dia seguinte, hoje só queria que o Natal esperasse um bocadinho.
-No sitio onde moras não neva? - perguntou ele tentando afastar o tempo.
-Quem me dera! Nunca nevou. Se nevasse lá nevava aqui. Não é muito alto na minha casa.
-Na minha também não- disse ele muito rápido esperando morar perto dela.
-É por isso que não neva...
Os olhos dela percorriam agora o dourado dos cabelos dele, e sem que ela soubesse, o seu coração suspirava. Ele suspirava olhando o braço maior do palhaço que trazia no pulso que se mexia cada vez mais depressa.

*um atraso destes não se desculpa, mas afinal o Natal é quando duas crianças quiserem ;)