Estatística
"Uma hipótese pode ser definida neste contexto como uma conjectura acerca de uma ou mais populações"
M de sal, de lágrimas e de vento. M de beijos e sorrisos, de desejos e sentidos. M de morte, de vida e de momento. M de mundo, de março, abril e maio. M de Setembro. M de meu, teu e dele. M de tudo, M de nada. M de estrada.
"Uma hipótese pode ser definida neste contexto como uma conjectura acerca de uma ou mais populações"
Se os meus olhos te encontrarem com este amor que te trago no peito, beijar-te-ei. Sorri
Num quadrado pequeno demais para se ver o mundo vão caindo palavras grandes demais para caberem no mundo. Eu esqueci-me que não me importo. Lembrei-me que sou humano. Quero escrever mais.
Mastigar o tempo com estes dentes cariados. Não o sol e a chuva. Mas os anos e meses. Tudo isto que vai enchendo o peito num balão que já estica mais. Sistema nervoso they call it . Eu chamo-lhe talvez tudo o que guardo. Tudo o que trago, armazeno e arquivo. O cotão das emoções que se vai acumulando debaixo de desejos poeirentos e frustrações renováveis. O mesmo ciclo sem ciclo novo. A mesma desilusão coberta pela mesma aparência. Tenho que ter este sorriso ao mundo. Já tive esta conversa. Não sei quem me obriga. Quem mo mostrava por exemplo, deixou-o cair de novo no quotidiano preto e branco. Quem mo mostrava com todas as cores, deixou-se fugir como areia na minha mão. Porque raio me faz falta tudo o que não tenho? Porque não encontro na prateleira o que perdi no coração. Aprisionado em mim próprio. Sem luz na mesinha de cabeceira. Sem folga para café. Sem folga para fumar. Talvez abra a janela de grades. Talvez mostre ao céu fatiado que também pode ser céu. Talvez mostra á vida aos bocados que também pode ser vida. Talvez mostre à vida que não pode continuar aos bocados.
A chuva já parou de chover, o dia que acorda tarde, ou cedo demais para a minha cama. O gelo cobre a chuva e o dia espera pacientemente nas gotas de água gelada. Os candeeiros mostram a luz já em vão contra o nascimento repetido do astro regente. As vozes ecoam contra o branco vazio da madrugada esquecida. A água corre e lava mais a mente do que o corpo, diluindo o turbilhão. Não é o fim do mundo diz-me Miguel Esteves Cardoso ao ouvido. Sou obrigado a sorrir. É talvez o fim do dia que começa. Uma distracção que surge como um bálsamo, o medicamento que rouba tanto tempo quanto dá. “É melhor fechar os olhos, é melhor fechar os olhos meu amor”. Talvez seja melhor fecha-los agora depois de os ter aberto tarde demais. Talvez estejam já fechados , já não veja nada do que escrevo. Não sei. Amanhã me direi.
EA porta abre-se com uma sineta. Ele tira o casaco molhado e pendura-o num bengaleiro na entrada. Atrás do balcão o empregado prontamente tirou o cachimbo à máquina. Ele caminhou em direcção ao canto e sentou-se na mesa de olhos virados para a porta. O café chegou com o seu aroma a espalhar-se com a humidade. A humidade entrou também pela porta. A sineta fê-lo olhar pela porta e ver uns cabelos loiros que olhavam o guarda-chuva a fechar-se. A iminência do olhar dela fê-lo olhar de novo para o café que fumegava. Deixou cair o açúcar branco contra todo aquele castanho e esperou que ele se afundasse e que ela se sentasse. Pegou na colher e durante os movimentos rotativos vislumbrou-a já sentada junto ao balcão. Olhava para a lista com apetite. Ele olhava-a a ela. Apreciava-lhe a beleza. Os cabelos loiros caiam-lhe na direcção da mesa e alguns escondiam-lhe a testa. A boca de um vermelho pálido. Esticava de vez em quando os lábios como sinal de desaprovação do que lia. Ela subiu a franja com um gesto de cabeça, que como o fumo branco indicava que a sua escolha estava feita. Viu-lhe os olhos pela primeira vez, profundos como o nevoeiro de neve de janeiro. Rapidamente desviu o olhar antes que fosse apanhado. Pousou a colher no pires e levou a chávena à boca. Usando os dedos como escudo infantil, levou de novo os olhos à recém-chegada. Ela olhava o espaço vazio contemplando algo que não estava lá. Enquanto ele deixou cair o café na boca, ela moveu o vazio na direcção dele. Os olhos encontraram-se por pouco que pareceu muito. Como o flash das lâmpadas antes de se fundirem. Ele pousou então a chávena e pela periferia do olhar viu a mesa dela ser ocupada por uma chavena e um prato. Avançando na direcção dela com o olhar pousou na vitrina que ladeava a mesa dela. Viu o seu reflexo enquanto banhava o pacote de chá na sua chávena de café proporções desajeitadas. Enquanto fazia isso olhava para ele. Ele sabia-o, mas ela não sabia que ele o sabia. Como uma dança. Como uma dança foram-se olhando alternadamente enquanto ela esvaziava a sua mesa e ele esvaziava o seu pulmão de fumo. Quando terminou o seu cigarro ele ergueu-se da mesa. Do bolso retirou a moeda que deixou no tampo da mesa. Caminhou na direcção dela. Desta vez de olhar posto nas luvas que tentava calçar. Ela olhava para ele. Ele sabia-o e ela também. Ele desfraldou um sorriso enquanto passava por ela. Saiu para a rua onde a chuva ainda se fazia espalhar pelo vento. Caminhou mais uns metros até ouvir uma campainha. Nesse instante parou.
De entre os pregões alguém acelerou um garoto em direcção ao Natal. Outros dois mais crescidos abanavam as pernas para aquecerem os pés e arrefecerem o nervosismo. Ele já não sabia bem o que lhe dizer. Um só receio ocupava a sua mente.